OS SEM ABRIGO NÃO FAZEM PARTE DOS POSTAIS DE LISBOA (relato impressionante)

OS SEM ABRIGO NÃO FAZEM PARTE DOS POSTAIS DE LISBOA (relato impressionante)


"Um relato, creio que necessário, creio que de um facto desconhecido para a maioria (pelo menos assim escolho acreditar) relato de eventos ocorridos ontem, 6ªf, dia chuvoso e gélido, no Largo de São Domingos, vulgo, Ginjinha, pelas 15h.

Como todos os dias anteriores a esse, e provavelmente todos os dias que o sucedem, encontravam-se neste local dezenas de sem-abrigo prostrados, pelo alcool ou pela vida, aninhados em bancos e debaixo de toldos, protegidos pela precariedade dos seus cartões, dos seus cobertores sujos, dos seus sacos de plástico do supermercado, da chuva contínua de mais um Inverno que se instala.

Aproxima-se uma carrinha de lixo da CML, acompanhada por um agressivo fiscal, que um a um vai despertando todos os que se encontravam nesse local, e lhes retiravam cada um dos seus pertences- os tais cartões, cobertores, e sacos de plástico-enquanto displicentemente os projectavam para a caixa aberta da dita carrinha.

Não consegui acreditar, paralisei.

Num acesso de fúria dirigi-me ao dito fiscal, e inquiri sobre a acção em curso. Resposta- que eu não tinha nada a ver com isso, que estas pessoas estavam na rua porque queriam, e não tinham direito a conspurcar a via pública.

Entre insultos vários e uma choradeira tremenda (todos da minha responsabilidade), chega o amigo Vasco, que de telefone em riste tenta registar os acontecimentos. É impedido por um polícia à paisana, que estava na comitiva da CML, com um empurrão ameaçador e um "é que nem penses".

E a caravana passa, proseguindo com a sua mui digna missão de proporcionar vistas confortáveis aos transeuntes e turistas ocasionais, e eu fiquei a pensar na chuva, na minha casa, no meu cobertor, no meu conforto.

E vim para casa, prepara-me para divulgar aquela que, sendo optimista, me parece ser uma tentativa de obrigar os que mendigam a procurar os tais abrigos (de Chelas, dizia-me o fiscal).

E a pensar- que liberdades são estas, que direitos temos nós, que direitos têm os outros, os outros tolhidos pela vida, pelo alcool, pela depressão, pela miséria, pela tristeza, pela solidão... nem um cobertor, nem um cartão, nem um saco de plástico.

E agora regresso ao meu sofá confortável, ao calor da minha casa, do meu cobertor, esperando que este relato seja lido e relido, e acima de tudo, com a crença de que os factos relatados sejam tão chocantes para os que os lerem, como foram para mim.

Se este é o mundo em que vivemos, penso para com os meus botões, há que destrui-lo. Já."


Nadia Henriques
www.facebook.com/nadia.henriques.94

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