Amor por um Cão - Crónica da seguidora S.M

Amor por um Cão

Uma vez, tive de lutar por uma "coisa" que eu queria muito. Uma das poucas coisas por que eu lutei.
O meu namorado mostrou-me uma fotografia dos cachorros que uma cadela que ele tinha, teve.
Fiquei encantada. Tudo o que é pequenino tem graça e não resisti. Tão lindos que eram, tão pequenos e indefesos. Ele foi-me mostrando fotos até que chegou uma, de um pequenino. Acho que toda a gente o achava o mais bonito. Eu gostei dele simplesmente porque gostei. Ele tinha um brilho. Sim, era ele, era um menino.



Soube que se eles não fossem dados a alguém, que provavelmente os iriam enterrar. Antes já tinha dito que queria o menino e saber isto fez-me querer ainda mais.
Lá fui eu, à luta.

Andei a pedir ao meu pai, que queria aquela cãozinho, "Eu nunca tenho nada do que eu quero", implorar-lhe "tu tens os teus pássaros, a mãe tem o que quer (peixes) e eu nunca posso ter nada".
Claro que não consegui convencer. Mas não desisti. Eu queria mesmo aquele cão. Então arranjei maneira: por uns dias, ele ficaria em casa da minha avó. Depois, convenceria o meu pai a levá-lo para nossa casa.
Combinei com o rapaz (meu namorado) a levá-lo num certo dia a certa hora.

Ele trouxe-o e fiquei admirada, tão pequenino!
Afinal, nesse dia, ele não foi para casa da minha avó. Tínhamos um jantar antes, em casa do meu padrinho e, eu levei-o. Ele ficou na varanda, quietinho e portou-se muito bem. O meu pai, lá achou que ele podia ser um bom cão e deixou-me levá-lo para casa. Claro que eu sabia que a batalha não tinha sido vencida nem muito menos tinha acabado. 

Comprometi-me com o meu pai. Levantar-me cedo para levar o Pantufa (nome que tinha dado a um peluche de infância. Esse peluche que era um cão, significava para mim o cão que eu queria ter, o cão que seria meu, e meu amigo) à rua, limpar o sítio onde ele ficava, alimentá-lo, brincar com ele.
O meu pai chegou a fazer, passado algum tempo, um canil para ele. Tinha espaço para a casota, comida, água e algum espaço para ele brincar. Não era grande mas pequeno também não.

Sempre que o Pantufa acordava de manhã e ladrava, lá me levantava eu instantaneamente, como uma mãe a um bebé, para ir cuidar dele. Dava-lhe comida, pegava nele ao colo, atravessamos assim meia casa até á porta da rua e depois, lá íamos nós os dois a correr. Nos primeiros dias levava-o com trela.

Ele lá foi crescendo, e eu todos os dias me levantava cedo, instantaneamente, para ir cuidar dele e fazia isso à noite também. Sem problemas. Não era como se fosse uma obrigação para mim, mas algo que eu gostava de fazer, sentia-me bem com ele. Ele trouxe o meu melhor amigo. Quando estava triste ele lá fazia um disparate qualquer para eu me rir. Quando estava contente, brincávamos os dois e eu ainda me ria mais por ele ser mais rápido que eu a correr. E de vez em quando apanhava sustos por ele fazer o que não devia.


Acho que foi o cão que eu tive que mais disparates fazia. Ele era um rufia e eu não me importava com isso.
O Pantufa gostava de liberdade, de ser livre, correr e correr, fazer disparates. Não era propriamente um cão calmo que se deixava pegar. Na verdade, só eu é que lhe podia fazer festas e mimos e estar mais próxima dele. Tenho um vizinho que, todos os dias, brincava com ele e tentava fazer-lhe uma festa. Só conseguiu uma vez, quando o meu Pantufa interesseiro cria saltar a cerca da entrada da minha casa e não conseguia. Assim, deixou-se ser pegado pelo vizinho que o pôs do lado de dentro da cerca. O meu bebe é tão esperto… Ri-me com essa história.

Outra vez, num piquenique, levei-o. Não parou muito tempo quieto na viagem. Conseguiu enrolar a corrente toda aos bancos do carro!
3 Homens foram brincar com uma bola (como não podia deixar de ser) na verdade, 4, pois o meu Pantufita lá foi também. Não parou de brincar durante o piquenique todo, sempre atrás da bola e nunca a conseguia apanhar por ser muito grande! No outro dia, dormiu tanto…

Ele não parava muito tempo quieto no meu colo, só uma vez é que dormiu nele: no dia em que veio para minha casa comigo.
Só o conseguia por no meu colo se o abanasse como um bebé, para aqui e para ali. Ele gostava, mas estava sempre com a cabeça em pé, a cheirar e a ver tudo.

Com ele conseguia até ir de madrugada à rua sem ter medo, ele defendia-me de quem me pudesse fazer mal. Ele tirava-me o medo, não só da rua de madrugada, das pessoas com más intenções mas o medo do futuro, da vida. Na verdade, sem ele querer ou ter consciência disso, ele estava lá quando eu precisava. Até lhe contava o que se tinha passado naquele dia e adorava as reações dele: rebolar na erva, brincar com os paus, comer as ervas todas, roer a madeira, saltar e correr. Isso chegava-me, era como se me dissesse: "Deixa isso tudo, não tem importância. Aproveita o momento presente".

Certo dia, veio uma senhora passear com o seu cão e passou por nós. O cão da senhora estava solto e era um grande labrador. Com medo que pudesse fazer alguma coisa ao Pantufa, puxei-o pela corrente até o sentir ao meu colo. Estava eu (uma menina pequenina na altura, com menos de 1 metro e meio), o Pantufa ao meu colo, os meus braços a protegê-lo e por cima de nós, duas patas de um grande lavrador em pé, pousado em nós. A dona veio logo tirá-lo. Eu não estava com medo que o labrador me fizesse mal, nem pensei nisso mas sim no meu Pantufita. Afinal o grande cão só queria brincar mas e o susto que eu apanhei?

Protegia-o de tudo o que podia ser mau para ele. Nunca amei tanto um cão como a ele. Ele era tudo para mim, protegeu-me, apoiou-me, era meu amigo, estava lá, fazia-me rir e fez-me chorar também… Uma das vezes quando estava ao meu colo e íamos à rua, escorreguei com ele e fomos os dois para o chão. Não sei como caí, só sei que levantei-me em segundos para ver como ele estava. Ganiu de dor numa pata e julguei tê-la partido. Peguei-o ao colo e fui pela casa a gritar e chorar "Mãe!!!!!! Mãe???? O Pantufa partiu uma pata! Coitadinho! E agora?" e depois de não a encontrar o pânico "Mãe????!!!! Precisamos de ir ao veterinário! Onde estás? O Pantufa partiu uma pata!" Sempre a chorar. Na verdade ele não partiu pata nenhuma e passado uns dias, deixou de andar coxo.


Da pior vez que ele me fez chorar, foi no dia 2 de Novembro (mês do meu aniversário). Última vez que o vi. Lembro-me que de manhã, ele baixou-se aos meus pés e olhou para mim com os seus olhos verdes como quem queria dizer "eu serei sempre teu, estarei sempre aqui para ti" num gesto de submissão. Entendi aquilo como uma despedida e disse-lhe: "Não! Não faças isso!" E convenci-me que não iria acontecer nada. Cheguei à tarde a casa e ele não estava lá. Percorri a terra toda à procura dele, perguntei às pessoas e as minhas pernas tremeram de cansaço de andar de bicicleta e a pé. Até hoje, não sei onde ele está ou o que aconteceu e não aceito o facto de a melhor coisa que aconteceu na minha vida se ter ido embora. Acho que ele fez a missão dele por cá, pela minha casa: abrir o coração do meu pai.

Agora tenho uma cadela cá, que também gosto muito dela mas eles são muito diferentes. E o meu pai faz-lhe festas e gosta dela também. Ele está mais sentimental e aberto aos animais agora. E isso foi graças ao Pantufa.

Ele gostava de liberdade e acho que agora a tem, acho que agora é cão de um caçador e caça bem, por sinal. Acho que está feliz, corre e salta muito e está a fazer outra missão dele.
Viverei toda a minha vida à espera que ele se farte de "andar de férias" e volte. Estarei à espera dele. À espera dele com aquele pelo da cor do meu cabelo, estarei à espera de ver aqueles olhos verdes de novo porque eu me irei sempre lembrar do meu mais fiel e verdadeiro amigo e ele sabe, que quando voltar, eu estarei cá para protege-lo ainda melhor e duvido que ele se esqueça de mim, de nós e da comida boa que eu lhe dava :D.

Chorei muito e ainda estou a chorar a escrever este texto, mas decidi escreve-lo para partilhar com todos o quanto alguém pode amar um animal, a quantidade de amor que eles são capazes de nos dar, os bons sentimentos que eles nos fazem sentir. Quem nunca teve um cão não sabe do que estou a falar… recomendo a querer saber. Eu amo este cão mais do que amo muitas pessoas. Eles estão sempre cá quando precisamos, não vão embora quando cheiramos mal, quando estamos sujos, sem dinheiro, sem emprego, eles estão cá quando todo o mundo não está. Eles não são como as pessoas… eles são melhores!

Não sei como existem pessoas que os abandonam… que os maltratam… Elas é que deviam sentir isso na pele. Eu gostava de ter dinheiro suficiente para puder alimentar todos os animais do mundo e tempo suficiente para brincar com todos eles. Esse é o meu único sonho de criança. Não sou rica e ainda não o cumpri mas, no que puder ajudar, ajudo. Dou comida às associações e outras coisas que elas precisem e infelizmente, gostaria de dar mais. Sinto-me bem a dar porque, quem sabe, se o meu Pantufa um dia não esteve lá também. Sinto-me bem a saber que cães como ele, por dentro, podem ter ao menos comida e rezo para que sejam amados.

Já que não tenho todo o dinheiro para os ajudar, peço que cada um de nós ajude com o que puder, com mimos, com amor, com uma adoção, com doações de dinheiro, de comida, com um lar… Experimentei só…sentir o amor de um cão, apaixonem-se por eles… não tenham medo de sentir, sabe bem…


 Redigido por: S.M

5 comentários:

  1. Lindo!...
    Fez-me pensar mesmo muito...
    Um texto sincero e sentido...

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    1. Totalmente sincero. Tudo o que sinto e senti tentei escrevê-lo da melhor forma possível para que, quem ler, possa sentir um pedacinho também.

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  2. É assim mesmo que sente quem tem um amigo de quatro patas! O amor é incondicional e lamento por todos aqueles que não sabem o que isto é. Eles é que perdem, não os animais.
    Adorei o texto!

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  3. Há algumas pessoas, poucas ainda, que sentem este tipo de amor, que sabem que os animais também entendem este amor e afeição e que podem ser amigos para a vida.
    Também salvei alguns animais e arranjei algumas pessoas que ficassem com eles, mas nem sempre temos essa sorte. É sempre bom conhecer pessoas de grande coração por aqui :)

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  4. Adorei o texto, li-o atentamente do princípio ao fim e tive pena quando acabou... Foi uma experiência e pêras para uma menina de metro e meio. Eu tenho 4 cães, salvos da rua, e basta olhar-lhes nos olhos, qualquer um deles, para sentir as emoções de que fala no texto. Sinto que eles morreriam por mim, os 4. Sinto-me uma felizarda por ter tais sentimentos e tal relação com os meus animais. Também tenho 2 gatas, mas já são diferentes, andam pela rua (eu vivo no campo), conhecem o barulho do meu carro a chegar a casa e vêm a correr para a dona lhes dar de comer. Dormem comigo e sabem quando eu estou triste, adoro as minhas meninas mas um cão é totalmente diferente. Cães e gatos são dois seres destintos, mas ambos incríveis! Bem haja pela paixão que tem pelos animais!

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